Escrever para um adolescente sempre me pareceu muito complicado. Além de ser exigente na hora de escolher o que ler, o jovem é também um leitor bastante crítico, e algumas vezes, preconceituoso com o que é escrito para ele. Desde que tive a oportunidade de escrever/participar de alguns veículos direcionados à este público, escuto algumas coisas que eu raramente consigo engolir, mas que pelo visto, vou continuar ouvindo por um bom tempo: adolescentes que mal leem um jornal ou uma revista "para adultos" criticando os cadernos/revistas feitos para eles. Ouvir que revistas como a Capricho ou cadernos como a Folhateen são infantis já ficou tão banal quanto ouvir que o morango é vermelho. E isso me irrita profundamente.
No colegial, talvez por função do vestibular que chegava cada vez mais perto, o único estilo de escrita que a escola mandava a gente fazer era dissertação. E por ter que escrever uma por semana, lembro que fiquei meio "bitolada" a esse estilo, e o único jeito que conseguia me expressar por escrito, naquela época, era de forma "séria", "dura". E foi meio que nessa época (no 2º colegial, na verdade) que eu fui convidada a participar da Galera Capricho (pra quem não sabe, é um grupo limitado de meninas que participam/ajudam a revista), e por estar nesse grupo eu tive a oportunidade de escrever algumas resenhas de livros e filmes para o veículo. Lembro do sufoco que foi "parir" a minha primeira. Era pouca coisa, questão de um parágrafo, mas que na hora, parecia mais difícil do que escrever uma monografia inteira. Eu tinha 16 anos na época, ou seja, me incluía por inteiro no começo deste post: era uma leitora exigente e crítica, que pegava no pé do que eu lia ou deixava de ler. E mesmo assim, senti dificuldade na hora de escrever tal resenha. "E agora, como ia fazer?" Eu precisava escrever para uma revista que muitas vezes eu critiquei, julguei como infantil. Mas acontece que eu não me considerava infantil e muito menos considerava meus "colegas de idade" infantis. Qual seria então a linguagem, as palavras certas a serem usadas? Foi aí que comecei a sentir o aperto que um jornalista que trabalha para este público sente todo dia (ou pelo menos sentia no começo, antes de pegar o jeito), e vi que a infantil ali era eu, ou melhor, todos os jovens que teimavam em criticar, de forma geral, algo que nem nós sabíamos. Escrever uma resenha de um parágrafo sobre um filme chato e chamar a atenção das leitoras da revista não parecia nem um pouco simples. Aliás, não era nada simples.
Com o tempo eu comecei a pegar a prática, e tudo começou a fazer mais sentido. Depois de participar da Galera, eu tive a oportunidade de escrever matérias maiores para a revista, o que, logicamente, me enchia de orgulho. Mas era só querer mostrar para o pessoal da escola, que eu me irritava. "Matéria sobre o quê você escreveu? Sobre como conquistar o cara ideal na balada? Sobre o beijo perfeito? Sobre as bandinhas da moda?" Comentários assim era o que eu mais ouvia dos meus amigos, e isso me matava de raiva. Por que será que os próprios adolescentes, que ainda estão na faixa etária do público alvo de veículos como a Capricho, têm tanto preconceito na hora de ler algo direcionado à eles?
Essa semana, um colega meu da faculdade soltou durante a aula um "ah, a Folha de São Paulo tem uns cadernos ridículos, e a Folhateen é um deles. Isso é pra quem lê Capricho!" Eu faço faculdade de jornalismo e, logo, esse menino também. Na hora em que ouvi isso, foi como se um filme tivesse passado pela minha cabeça: Eu vi ex-colegas de escola, eu vi a minha antiga classe, eu me vi mostrando minhas matérias para aquela turma de colégio. Ouvir aquilo foi como fazer uma viagem à 2007, e eu não consigo ficar calada quando frases como a citada acima chegam aos meus ouvidos. Eu senti na pele a dificuldade de adaptar um texto a um público alvo, a uma linha editorial especifica, e vi que não é das coisas mais fáceis e simples. Por causa disso, sinto raiva, eu assumo, de quem desmerece o jornalismo feito num veículo teen.
O jornalismo existe para todos os públicos, e não é porque um é feito para adolescente, que é menos jornalismo que o que é feito na Veja, por exemplo. Que da mesma forma que um jornalista econômico apura sobre uma crise nos EUA, ele pode apurar sobre como encontrar o garoto ideal na balada, e que isto pode ser tão difícil quanto entrevistar um fodão da política. Enfim, ao meu ver, isso é jornalismo. Eu ainda não sei em qual área quero atuar, mas para aqueles que pensam que a verdadeira função do jornalista é escrever sobre política, economia, cotidiano e etc, me desculpe, mas eu não tenho nada a declarar.
p.s.- para quem quiser ver, aqui está o texto que fiz em 2007 sobre todo o processo de "produção" da minha primeira matéria na Capricho: http://colunadalu2.zip.net/arch2007-08-26_2007-09-01.html Depois eu escrevi mais matérias, mas este post é só sobre uma.

