Era óbvio que a procura pelos livros do
Salinger seria maior depois da morte dele. E era óbvio também que eles esgotariam. Como não pensei nisso antes, né? Na verdade, isso até chegou a passar pela minha cabeça, mas logo a idéia de que relançariam todas as suas obras chegou e eu acreditei fielmente nela. E me enganei, claro.
No final do ano passado, enquanto navegava pela internet à fora, li uma resenha muito legal sobre Franny e Zooey e logo fiquei com vontade de lê-lo. Na mesma hora, o procurei nas lojas online da Saraiva, Fnac, Cultura e afins e nada do livro. A única coisa que eu via ali eram várias versões de O Apanhador no Campo de Centeio - para felicidade de quem nunca leu essa obra prima, e tristeza de quem quer ler mais do autor. Bom, desencanei naquela noite e decidi que procuraria nas lojas físicas mesmo. Acontece que logo em seguida eu fui pra Israel e deixei essa ideia um pouco de lado. Não passou nem um mês e o Salinger morreu.
Choquei. Foi aí que aquela brilhante idéia do primeiro parágrafo apareceu. "Agora sim vai ficar mais fácil de achar os outros livros dele!", pensei. Voltei a pesquisar na internet e nada de achá-lo. Agora, pior ainda, nem O Apanhador no Campo de Centeio tinha. Claro, né, Salinger é muitas vezes sinônimo de O Apanhador, e em muitos jornais, só ele foi citado nas matérias sobre a morte do escritor. Nada mais justo, então, das pessoas procurarem exatamente este.
Fui na Livraria Saraiva, fui na Livraria da Vila, e em todas ouvi um simpático "não tem" dos vendedores, quando perguntados sobre Franny e Zooey. É, aquilo já estava virando uma saga. Não podia ser tão difícil assim comprar um livro! E tudo começou a melhorar 1 mês e alguns dias depois, quando um professor da faculdade mandou a gente ler um conto do Salinger.
Um dia ideal para os peixes-banana. Esse é o primeiro conto do livro Nove Estórias. Confesso que fiquei bastante animada quando ouvi ele indicando o Salinger pra gente. Ler um texto dele pra faculdade não seria nenhum castigo. O castigo, eu imaginei, seria achar o bendito. Bom, pra sorte da galera, ele disponibilizou cópias do conto, mas eu senti que aquele não era o caminho pra mim. Veja bem, eu acredito em destino, e levando em conta toda a saga pela qual eu já estava passando, não custaria acrescentá-lo, junto a Franny e Zooey, à minha busca. E foi o que eu fiz.
Saindo da aula, fui na Livraria Cultura da Avenida Paulista disposta a levar o que tivesse lá.
- Onde estão os livros do Salinger? - perguntei à primeira vendedora que encontrei
- Em que língua?
- Hmmm...pode ser em inglês ou português.
- Acho que só vou ter em inglês mesmo. Venha comigo - ela disse.
Chegando na estante, só dois livros eram do Salinger. Um, claro, era O Apanhador. O outro, pra minha sorte, era Nove Estórias. Encontrá-lo assim, fácil? Uau, aquele parecia ser meu dia. Aproveitando a boa maré, perguntei sobre Franny e Zooey.
- Hmm, se não tem aqui na estante dos livros em inglês, não tem. Agora que o Salinger morreu, eu recebo 200 livros dele e em dois dias todos já foram vendidos. Antes eles ficavam um tempo nas estantes, mas agora, nada. - me falou a vendedora.
Sim, era óbvio. Quem não lucra quando morre, né? Dãã! Bom, eu não podia reclamar. Já tinha achado um livro, mesmo que em inglês. Me dirigindo ao caixa, resolvi dar uma olhada geral na livraria. Pra quem não a conhece, a Cultura da Avenida Paulista é simplesmente o paraíso dos livros. É enorme, cheia de pufes coloridos e muitas pessoas lendo ou dando voltas pelo local. Já era tarde e eu não podia ficar muito tempo por lá, mas resolvi dar uma passeadinha. Foi quando encontrei um vendedor disponível e, como quem não quer nada, perguntei se ele não tinha mesmo o maldito livro que eu estava procurando tanto.
- Franny e Zooey? Hmm, quase certeza que tenho sim.
- AHN? Tem mesmo?? Sério? Eu perguntei pra outra vendedora e ela disse que não tinha!
- É, pois é...Os livros do Salinger têm saído muito rápido! E faz um tempinho que não recebemos reposição. Mas se eu não me engano, vi ele hoje na estante. Vamos lá.
Eu só faltei cruzar os dedos enquanto me dirigia com o vendedor à estante. Pra minha aflição, quando chegamos lá, ele não achou o livro. Olhou umas três vezes e nada. "É...acho que já levaram", ele me disse. Bom, tudo bem né...fazer o quê. Eu já estava agradecendo-o e indo pagar o Nove Estórias, quando escapou da boca dele um "Ôpa! Olha quem tá aqui!". Sério, ele falou desse jeito.
E eu sai feliz da vida da Livraria Cultura.
p.s. Hoje ele já está disponível pelo site e toda a saga poderia ter sido um tanto mais curta. Mas faz parte.