(O texto abaixo eu escrevi pra disciplina de Filosofia da faculdade. A professora pediu que elaborássemos, a partir da teoria de sociedade visual do filósofo Vilém Flusser, um texto para o público teen que vive no interior. Eu tentei resgatar meu espírito Capricho e escrevi isso que está logo abaixo...)
A sociedade na qual uma imagem vale mais do que mil palavras
Será que acreditar somente naquilo que vemos não é furada?
Imagine a cena: você está andando pela praça principal de sua cidade quando se depara com um rosto conhecido. Na hora, o refrão já vem na sua cabeça: “baby, baby, baby, ohhh”. Sim, é ele. Justin Bieber, o fenômeno pop mundial está passeando na sua pacata cidade.
Você pode nem gostar dele, mas poxa, imagine quantas meninas não a invejariam por este momento!? Não há outra coisa a se fazer a não ser fotografar a cena. Mas peraí, você pensou que não precisaria do celular para dar uma pequena volta na praça e o deixou em casa. E muito menos levou a câmera digital. E agora? Chegar no Twitter falando que viu Justin Bieber na sua cidade sem uma imagem do acontecimento é a mesma coisa que nada. É…você pode até ter visto o ídolo teen na mesma praça que frequenta, mas sem ter uma foto pra provar, é como se nada tivesse acontecido, porque ninguém acreditaria em você.
Ok, talvez esse exemplo do Justin Bieber tenha sido uma viagem, mas na realidade, nem é preciso ir tão longe para se notar o poder que as imagens hoje possuem em nossas vidas. Quanta gente não tira fotos em viagens pensando em publicá-las no Orkut para estas serem vistas pelos amigos? Quanta gente não deixa de ler um relato em algum blog só por ele não ter imagens que o ilustre? Segundo o filósofo Vilém Flusser, isso tem nome. É a sociedade visual, na qual se dá mais valor às imagens do que às próprias palavras. Uma sociedade que, acima de tudo, se relaciona por imagens.
Neste contexto, as imagens são tidas como concretas, refletem a realidade. E o homem, segundo Flusser, deixa de ver, pensar, em função delas. Isto é, na visão do filósofo, nossa capacidade crítica acaba sendo deixada de lado, uma vez que acreditamos naquilo tudo que vemos na nossa frente. De certa forma, isso significa então que a câmera, o celular que você esqueceu de levar quando encontrou Justin Bieber, é o que realmente detém a verdade, a cena real, e não o próprio ser-humano por outros meios, como a escrita, por exemplo.
Numa comparação muito interessante, Flusser chega a afirmar que temos algo em comum com a pré-história. Nas duas épocas, a escrita era praticamente nula. E não é que hoje, mais do que nunca, levamos a sério aquele ditado que já dizia que “uma imagem vale mais do que mil palavras”?
A questão é: será que com a invenção de tantos aparatos tecnológicos, com a possibilidade de termos, com um toque do dedo, acesso a imagens e informações de tantos lugares, não estamos esquecendo de algo tão simples que é o pensar, racionalizar? Se sua amiga disesse que encontrou Lady Gaga na sorveteria, você questionaria antes o fato de ela não ter uma imagem que prove o ocorrido, ou o fato de que seria um tanto difícil ver Lady Gaga tomando sorvete numa cidade do interior? É algo a se pensar…