segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dura poesia concreta de tuas esquinas

Quando abri os olhos pela primeira vez eu já era paulistana. Antes mesmo de ter um nome e um berço, eu já tinha uma nacionalidade, um local de nascimento, e neste constava o nome da maior cidade da América Latina. Pra minha sorte ou azar, São Paulo já fazia parte da minha história, e mesmo que eu saísse do hospital direto para o aeroporto, a cidade que uma vez inspirou Caetano já fazia parte de mim.

Viver em São Paulo por 21 anos poderia me fazer especialista na metrópole. Poderia, se não estivéssemos tratando de uma cidade tão complexa. Acredito que São Paulo continue uma incógnita até para aqueles que já passaram da 6ª década na terra da garoa. São Paulo é uma cidade fria e acolhedora. É simpática ao mesmo tempo em que é agressiva. Ela consegue atrair e espantar pessoas num estalar de dedos, e talvez, quem sabe, esse seja seu charme. Ou melhor, um dos.

São Paulo não tem praia, não é segura, é estupidamente grande e, dependendo do ângulo, é feia. Tem muito trânsito, muito assalto, muita gente louca, mas, olha que bom, muita gente diferente. Uma caminhada na Avenida Paulista já basta para ouvir diversos sotaques, línguas e ver rostos que, fazendo uma aposta aqui, dando um palpite ali, até conseguimos acertar de onde vêm. São Paulo vive da diversidade, e exatamente por isso muita gente fala que a cidade não tem personalidade. Mas será que a personalidade dela não é...hm...essa?

São Paulo é uma cidade de todos e ao mesmo tempo de ninguém. Recebe pessoas diariamente - e, lógico, também expulsa um bocado. Tem gente que não gosta, que acha a terra da garoa tão cheia que chega a ser vazia. De sentimento. De acolhimento. Ninguém falou que São Paulo seria fácil. E realmente não é.

Morar aqui é se estressar no trânsito. É não marcar nenhum compromisso para às 18h30 por provavelmente não conseguir chegar a tempo. É se enfurnar num shopping com ar-condicionado em pleno final de semana de sol por simplesmente não ter onde se refrescar. É comer cada dia em um dos milhares restaurantes que a capital possui. É, infelizmente, andar na rua com medo de ser assaltado. É passar sufoco num ônibus lotado pra chegar em casa. É não conseguir atravessar a rua num dia de chuva porque esta está alagada.

São Paulo, em muitos aspectos, é igual a muitas outras cidades. Tem tantos problemas quanto qualquer capital - ou cidade pequena, por que não? Mas tem coisas...Ah, tem coisas que só ela...

Feliz aniversário, São Paulo.




quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nem zero e nem light

Acabou! Chega! Basta! Vocês, suas bebidas gaseificadas, estão fora da minha vida. Espero nunca mais encontrá-las próximas ao meu prato seja em casa ou em algum restaurante. Nunca mais irei ao  vosso encontro no supermercado e, desta forma, jamais habitarão o meu carrinho de compras. Não precisarei mais especificar se quero a minha bebida "zero" ou "light", e muito menos se quero uma rodela de laranja junto do gelo. Vocês não significam mais nada pra mim, suas gaseificadas! Não me importa mais se  vêm em garrafas de 1,5L, 2 litros ou 600 ml. Nem se a lata está gelada ou não. Não me importa se vocês cairam antes de eu abrir. De gás vocês não me molham mais!

Está decretado, gaseificadas, e já tem mais de 1 mês. Celulites vocês não me proporcionarão mais, e as calorias que antes vocês injetavam no meu corpo eu prefiro ganhar com alguma outra coisa mais gostosa. Sim, desprezo é o que sinto por vocês no momento! Da Coca-Cola eu já me despedi faz tempo, mas agora chegou a hora de dizer adeus para você, Guaraná. Foi bom enquanto durou, mas o nosso relacionamento acabou.

E este é o fim de uma Luiza que bebia refrigerante. 

p.s. - eu praticamente ouvi "We are the Champions" tocando quando fui ao McDonald's e pedi um número 2 com suco de maracujá.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Hollywood Street Boys

É triste dizer isso, me sinto uma velha até, mas é a mais pura verdade: infelizmente tenho uma memória muito fraca quando o assunto é filmes e livros. Eu só consigo lembrar daqueles que amei ou odiei. Os meio termos meio que desaparecem da minha cabeça assim que terminam. Há um tempo, quando me cadastrei no Filmow, aquela rede social de cinema, ao ler alguns nomes de filmes eu mal conseguia saber se os tinha assistido mesmo ou apenas visto o trailer. Complicado. Desta forma, resolvi que esse ano iria anotar todos os filmes que eu vier a assistir e todos os livros que eu vier a ler. Assim, espero eu, não terá erro. E, bom, pra não correr o risco de perder o caderninho ou a agenda, resolvi que farei essas anotações no blog mesmo. Taí a explicação para essas duas páginas aqui em cima no topo do blog. Quem quiser fuçar por lá de vez em quando pode ficar a vontade.

2011, aliás, eu comecei super empenhada a assistir e a ler mais. Até o dia 08, por exemplo, eu já tinha visto 8 filmes e lido 3 livros. Na real é que eu sempre uso esse tipo de entretenimento pra curar alguma tristeza. E, bem, quem leu o primeiro post desse ano vai entender do que estou falando. Infelizmente (ou felizmente), eu não continuei com essa saga (involuntária) de 1 filme por dia, o que quer dizer: 1) não estou mais triste a ponto de afogar minhas tristezas na frente da TV/numa sala de cinema; 2) estou com preguiça.

E foi no meio dessa maratona sedentária, enquanto assistia alguns dos canais Telecine, que vi esse vídeo pela primeira vez. De cara adorei e dei risada. Aí comecei a ver algum filme, ele acabou, e esse vídeo voltou. Ainda achei engraçado. Comecei a ver outro filme, terminei, e o vídeo voltou. Cantei junto. Aí comecei a ver outro filme que, desta vez, tinha intervalos. Em todos, todos, o vídeo voltava. Ainda assim, depois de ter visto o bendito mais de 500 vezes só num dia, ainda gostava quando ele aparecia. Por favor, vejam:



Isso só me faz pensar que os publicitários da Caixa que fizeram aquela propaganda insuportável de final de ano podiam aprender a fazem um vídeo que não irrite mesmo ele sendo transmitido 1 milhão de vezes por hora. Aquele bebê e a música do comercial me faziam querer quebrar a TV toda vez que apareciam. Já o efeito desse vídeo genial do Telecine foi que agora eu tenho no meu Ipod um CD dos Backstreet Boys. Ok, ainda não sei o que é pior.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Passando vergonha no campo de centeio

"O que é um personagem? O que acontece com os personagens quando fechamos o livro? Para onde vão? Existe outra dimensão, um lugar onde Holden, Ivanhoé e Patrick Bateman moram no mesmo condomínio? Um mundo em que Huck Finn e o Pequeno Príncipe jantam todos os dias, como figurantes em um filme, esperando para retomar seus papéis, perguntando por que seus criadores nunca telefonam?"

Não posso negar que rolou uma identificação ao ler o trecho, pertencente ao prefácio do livro "60 anos depois - do outro lado do campo de centeio", que destaco acima. Sempre que fecho um livro ou termino de assistir a um filme, perco pelo menos uns 5 minutos pensando pra onde vão todos aqueles personagens depois que os escritores e diretores colocam um ponto final nas histórias. Pode parecer meio babaca pensar nisso, mas sério, depois de ler sei lá quantas páginas e acompanhar toda uma trajetória, quando um livro acaba, por exemplo, chega a ser estranho pensar que daquela gente (as personagens) nunca mais saberemos. Ou que foi bom enquanto durou, mas agora acabou.

Há uns dois meses, fiquei sabendo da existência - e do lançamento - de um livro que conta a vida de Holden Caulfield, personagem do famoso livro de J.D. Salinger "O Apanhador no Campo de Centeio", 60 anos depois que a história acontece. Dessa vez Salinger não é o autor do tal livro, e sim Fredrik Colting, um escritor sueco muito corajoso (isso não é um elogio) e pretensioso - só uma pessoa assim pra continuar uma obra tão bem sucedida.

J.D. Salinger morreu no início do ano passado e eu até cheguei a fazer um post sobre ele aqui no blog. "O Apanhador no Campo de Centeio" é um dos meus livros favoritos de todos os tempos, e é claro que quando eu soube do livro do tal sueco, mesmo já imaginando que lá vinha uma bela bomba, fiquei muito curiosa pra ler. E pra tornar essa experiência muito mais interessante, resolvi reler "O Apanhador..." poucos dias antes de começar sua suposta continuação.

Antes de continuar, imagine uma pessoa X escrevendo uma continuação de Dom Casmurro. Ou, então, para Harry Potter. Faz algum sentido?


Na história de Fredrik Colting, Holden tem 76 anos, é viúvo e vive num asilo onde seu filho Daniel (sim, Holden é pai) o deixou. Holden Caulfield vivendo num asilo! Num asilo! São escolhas como essa que me deixaram completamente envergonhada enquanto lia o tal livro. E o mais ridículo é que Fredrik claramente copiou o estilo descritivo de Salinger para escrever sua história. Qualquer pessoa que ler a obra original e depois ler essa vai perceber. Ele forçou a barra legal. Não há outras palavras que definam tão bem esse livro quanto "vergonha alheia". Não sei como não fui parar embaixo da cama enquanto perdia meu tempo lendo essa baboseira.

Acho que a melhor parte do livro é o prefácio, da onde eu tirei o trecho que começa esse post. É a única coisa que parece fazer sentido.

É interessante e curioso pensar, imaginar, questionar o futuro dos personagens de livros, filmes, seriados, novelas. De qualquer forma, obrigada, Fredrik Colting, por me mostrar que o melhor é deixar essas dúvidas na imaginação mesmo. Que bom que Salinger teve tempo de processar esse escritor antes de morrer.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Pra você, meu pequeno

Há uns 20 dias, enquanto regava as plantas praticamente mortas de casa, um pensamento me veio a mente: "como seria bom se pudéssemos regar e sermos regados quando estivéssemos prestes a morrer". Não teríamos doenças, sofrimentos, perdas e nem saudades profundas. Nossas vidas talvez não teriam tanto valor, mas também não sofreríamos com a dor absurda e incompreensível da morte. "Ser uma planta deve ser mais fácil", conclui, e voltei ao que estava fazendo. No dia seguinte, quando fui checá-las, lá estavam elas, as plantas, verdes, erguidas e bonitas como se nada tivesse acontecido. Ninguém diria que 24 horas antes elas estavam no fundo do poço.

Esse pensamento invadiu minha mente numa época igual a qualquer outra. Não estava passando por nada que me remetesse a isso, e nem estava triste ou coisa parecida. As férias recém tinham começando e eu estava numa temporada home alone em casa, só eu e o Nick, meu maltês. No entanto, aquilo ficou na minha cabeça e, vez ou outra, principalmente quando olhava para os vasos, ele vinha à tona. Achei estranho um pensamento me impactar tanto, mas ah, o que eu podia fazer, né.

Não quero fazer desse post uma coisa triste e nem quero dar muitos detalhes. Acontece que o Nick, meu companheirão por 11 anos, morreu dias depois. E toda aquela cena das plantas voltou, só que agora com muito mais indignação e raiva. A vida é muito injusta para nós, humanos. Quem sabe ser uma planta não seja realmente mais fácil?

O Nick chegou aqui em casa quando eu tinha 10 anos. Eu basicamente não tenho muitas lembranças da minha vida a não ser as vividas com ele junto. Ele sempre, sempre foi um super companheiro, um cachorro carinhoso, protetor, amado e que oferecia muito amor. Por essas e outras, por estar sempre tão perto de mim, eu já não o via como um simples animal, mas como uma pessoa, um parente, um amigo. Acho que é isso mais ou menos que acontece com as pessoas que amam seus cachorros. O Nickão, como eu costumava chamá-lo, me viu mudar de escola, entrar no colegial. Acompanhou o estresse da monografia, me viu chegando em casa com prêmios e comemorou muito no meu colo quando eu tinha matérias publicadas. Me viu indo pra intercâmbio, me ouviu pela webcam e me buscou no aeroporto, alguns meses depois. E foi a partir daí que ficamos mais próximos. Com a minha "depressão pós Canadá" e minhas eternas dúvidas sobre o que fazer da vida, era ele quem dormia comigo até tarde, que ficava do meu lado enquanto eu mexia no computador ou assistia TV.

O Nick me viu prestando vestibular, me viu entrando na faculdade, me deu muitos beijos quando sentia que eu estava nervosa com algum trabalho e já chegava perto quando eu respirava de maneira angustiante, como quem está preocupada.

Por ser tão apegada a ele, eu falava pra muita gente que o Nick nunca morreria. "O Nick é imortal, nunca vai me deixar". Tantas vezes falei isso, até poucos meses antes de tudo acontecer. Eu tinha tanto medo disso que chegava a ser neurótica com a saúde dele. Qualquer coisa de diferente que eu percebia eu já o levava para o veterinário. E por ironia do destino, antes dele ser internado, eu o levei 3 vezes para consulta, e em todas as ocasiões escutei do veterinário que o Nick não tinha nada. Foi aí que eu percebi que as coisas nem sempre estão no nosso controle. Eu sabia que ele não estava bem, mas o destino conspirou de tal maneira que aos olhos de um cara que estudou por sei lá quantos anos pra tratar de animais, ele estava ótimo.

É, Nickão, agora aqui estou eu, meu pequeno, sem você. Hoje faz uma semana que você se foi, e se D'us quis assim, quem somos nós pra contestar, né? Sei que você está num lugar melhor e agora é meu anjinho, minha estrelinha. Você foi e é muito importante pra mim, Nickão, e sempre estará presente no meu coração. Obrigada por tudo, meu bebê, e que a gente se encontre quando chegar a hora certa. Eu te amo.



"Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou"
Canção da América - Milton Nascimento