Devia existir um jogo de tabuleiro chamado "Morando em São Paulo". Nele, cada participante (ou morador, no caso), avançaria as casas conforme voltasse ileso para casa depois de um dia de trabalho, estudo, passeio. Então assim: saiu e não sofreu tentativa de assalto: avance duas casas. Saiu e não foi assaltado: avance três. Saiu e não apontaram uma arma na sua cara: avance quatro casas. Saiu e voltou vivo e sem nenhuma história do tipo pra contar: parabéns, você é o vencedor (mas desta fase, não do jogo, afinal nunca sabemos o dia de amanhã...)
Eu, neurótica do jeito que sou, provavelmente nem jogaria esse jogo se este fosse opcional. Eu adoro São Paulo, isso não é novidade pra ninguém, mas tenho medo sim de morar aqui. Acho muito triste viver num lugar onde você não se sente seguro, onde você precisa andar escondendo tudo que tem, onde não pode sair depois de algum horário, enfim, onde tem que se privar de várias coisas simplesmente para sobreviver.
Em agosto do ano passado, até escrevi
sobre isso no blog, sofri minha primeira tentativa de assalto. Eu esperava pra atravessar a rua logo após sair da faculdade quando dois pivetes chegaram pedindo a bolsa e o relógio. Por sorte eu consegui me safar - num ato de loucura, confesso -, mas o trauma do ocorrido ainda não saiu de mim. Desde então, o ser neurótico que já existia aqui se tornou ainda pior. Por algumas semanas eu senti medo de qualquer estranho que parasse perto de mim. Mudei meu trajeto, evitei ficar parada na rua sozinha e já me tremia só de ver alguém se aproximando.
Com o tempo, é claro, isso foi passando, afinal, morar em São Paulo é conviver com isso diariamente. Ou você se acostuma ou você se...acostuma. Desde então já estava me considerando uma pessoa de muita sorte. Foram 7 meses e 1 dia sem nenhuma história dessas pra contar. Até hoje.
Assim como no episódio anterior, eu estava voltando da faculdade, só que desta vez de carro. Tinha acabado de sair do estacionamento e estava parada num farol na rua da Consolação. Pra quem não conhece, a rua da Consolação é praticamente uma avenida. São três faixas para carros e uma para ônibus e taxi. Eu sempre fico na faixa ao lado da de ônibus, porque em determinado momento eu tenho que virar em outra rua e essa é a que mais me facilita para tal. Porém, ficar ao lado de vários ônibus não é uma tarefa muito fácil. Eles são grandes, muito grandes, e eu e meu carro somos quase um pontinho, uma sujeirinha perto deles. Sendo assim, eu sempre fico preocupada porque às vezes os ônibus meio que invadem a faixa que eu uso e eu tenho que ficar ligada pra eles não baterem em mim. Em outras palavras: a Consolação me deixa tensa e eu sempre tenho que me concentrar quando estou por lá.
E era assim que eu estava no fatídico momento. O sinal estava fechado, mas eu estava bem concentrada em sair logo dali. Não demorou para o sinal ficar verde e eu começar a acelerar. Como o trânsito no final do dia não é pouco, havia alguns vários carros e motos na minha frente, então quando o farol abriu a velocidade de todos era lenta. Coloquei o pé na embreagem, mudei a marcha, acelerei mais um pouco o carro e TUMMMMM.
Não, eu não bati o carro. Não, nenhum carro bateu em mim. O que aconteceu foi que simplesmente um mendigo provavelmente fora de si (dorgas, manolo) sentiu vontade de exercitar a mão e deu um murro na minha porta traseira. Só isso. O cara, além de estar atravessando a rua com o sinal aberto, quis dar uma de rebelde e esmurrou o meu pobre carro.
[quando o cara começou a atravessar a rua em meio aos carros em movimento eu já achei estranho. Também tinha achado estranho o fato dele estar meio que me encarando, e isso me assustou um pouco. Mas como o farol já tinha aberto, era só andar para sair dali. Nunca que eu ia imaginar que aquele FDP (sorry pelas palavras) faria isso].
Na hora eu saí de mim. O barulho foi absurdamente assustador. De primeira eu não entendi o que havia acontecido e continuei - não sei como - a dirigir. Um motoqueiro que estava na minha frente na hora também se assustou, e mesmo os dois dirigindo, por meio de mímica ele me falou que o cara tinha feito um belo estrago. Coitado, ele estava com as melhores das intenções, mas as caras que fazia quando olhava pra minha porta surrada me deixavam ainda mais nervosa. Como estava em movimento, eu não tinha como saber o que exatamente tinha acontecido, então me desesperei.
Eu tremia feito uma retardada. Minha vontade era parar o carro em qualquer lugar, mas na Consolação isso seria impossível. Na real nem sei como saí de lá. Eu tremia e chorava e nem me pergunte como o volante me trouxe até em casa. Eu não sei. Além de ter sido uma violência extremamente gratuita, o barulho do cara socando meu carro foi muito assustador. Na hora eu não sabia o que estava acontecendo, só sabia que eu não tinha batido em nenhum carro e que nenhum tinha batido em mim. Então o que poderia ser?
Cheguei em casa desnorteada. Eu sinceramente preferia que aquela porta amassada que agora tenho no meu carro tivesse sido causada por mim. Ou então por outro motorista. É foda viver num lugar onde você está sujeito até a porradas a troco de nada. Óbvio, foi no carro, menos mal. Mas a mulher que estava no carro ao lado do meu estava com os vidros abertos. Se ela estivesse na minha faixa, talvez o cara esmurrasse a cara dela, por que não? Dos males o menor...dos males o menor.
E é com essa consciência (dos males o menor) que a gente sobrevive. Semana retrasada um aluno da FGV foi brutalmente assassinado e seu amigo levou sei lá quantos tiros. Semana passada foi um da ESPM que morreu numa tentativa de assalto - e sem reagir, contam as testemunhas - bem perto da faculdade. Lógico, não vou nem comparar esses dois episódios com o que aconteceu comigo hoje, mas é foda aceitar que coisas como essas aconteçam.
A fase final do jogo "Morando em São Paulo" provavelmente seria essa: Você venceu. Pode estar sem seu celular, sem seu carro, com o trauma de um assalto, com a imagem de uma arma na sua cabeça, mas não tem problema. Dos males, o menor. Parabéns.