Minha relação com o Woody Allen é igual a uma que eu tive com um antialérgico há um tempo atrás. Sabe quando você está doando saúde mas toma um remédio para rinite só para conseguir dormir? Então. Eu tinha esse tal de Actifedrin, que no início super solucionava minhas crises de falta de ar e ao mesmo tempo me baqueava de uma meneira que eu nem conseguia levantar o braço. Não tinha forças. Aí o que eu comecei a fazer? Sempre que estava ansiosa demais, com insônia ou querendo dormir muito, jogava o comprimido goela abaixo e na cama ficava por horas, horas. Até que, é claro, meu organismo viciou e o pobre Actifedrin passou a não fazer mais efeito nem para minhas crises alérgicas e nem para minha falta de sono.
Eu e o Woody Allen somos meio assim, também. De um tempo pra cá comecei a gostar tanto de suas obras que mesmo quando ele faz um filme ruim eu não consigo assumir que dessa vez não estava legal. Eu o perdôo e assim vai. "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", por exemplo. Achei uma grande merda, a ponto de durante o filme eu até cogitar apertar o fast foward por sentir que daquele mato não sairia coelho. Mas aí eu lembrava que por trás de tudo estava aquele velhinho fofo e neurótico e ah...o filme nem era tãão ruim assim. Pois é, perdi o senso crítico quando se fala em Woody Allen. Viciei.
Pra mim tudo que ele faz é válido, então com a crítica falando bem ou mal é claro que eu veria "Meia-Noite em Paris", filme lançado há uma semana. Depois de uma sequência de filmes criticados a dar com pau pela mídia, não esperava que elogiassem esse último, mas por incrível que pareça, não vi, pelo menos que eu me lembre, um veículo sequer dar menos de 4 estrelas para ele. Woody também estava agradando a galera online. Cansei de ler elogios ao filme pelo Facebook, Twitter e em alguns blogs por aí. "That's my boy", era o que eu pensava.
Com todo esse amor que você provavelmente já cansou de ler por aqui, era de se imaginar que eu fosse assisti-lo logo que chegasse aos cinemas. Mas não rolou, o tempo não me permitiu e ah, quer saber de uma coisa? Adoro ficar com essa sensação, esse misto de expectativa e ansiedade em relação a algo. É o meu lado paranoico, fazer o que. E saber que em qualquer sala de cinema próxima Woody Allen estaria me esperando meio que me empolgava. Aí hoje lá fui eu encontrá-lo.
O primeiro e mais sincero comentário que posso fazer depois de 1 hora e meia na sala do cinema: esse é o meu garoto! É por filmes como esse que dá vontade de brigar com ele por fazer obras tão curtas. Em uma entrevista recente, acho que para o Estadão, ele disse que não precisa de muito tempo para dizer o que quer, além de ter medo de entediar o espectador. Como alguém se entediaria com a viagem doida no tempo de Gil Pender?!?! Eu passaria mais algumas horas fácil, fácil naquela cadeira meio desconfortável do Cine Livraria Cultura. Eu sei que sou meio suspeita, mas mesmo assim.
Meia-Noite em Paris é incrível. Esse, devo admitir, tem algo de especial em relação aos últimos que ele lançou. Talvez a combinação Paris + anos 20 + Woody Allen + mercados de pulga + história + literatura + a minha tão amada livraria Shakespeare and Company tenha surtido algum efeito especial. Não sei. Essa deixo para quem não é tão fã do velhinho decifrar, porque meu senso crítico, como já disse, sumiu igual ao efeito do Actifedrin. Viciou.



