Quando pequena eu podia facilmente ser uma personagem de Toy Story. Ou melhor, talvez não, porque mataria a charada dos "brinquedos vivos" logo no início. Isso porque eu sempre fui daquelas que vê sentimento em todos os objetos. Pra mim, uma caixa de fósforo, por exemplo, poderia ficar muito triste quando jogada fora, assim como algum brinquedo velho ou material escolar.
Antes que alguém queira me julgar, não, eu não tenho apego material, e por mais que visse carinhas tristes em tudo, eu não chegava ao ponto de não conseguir jogar as coisas fora (eu apenas falava mensagens otimistas, do tipo 'tudo vai dar certo', quase chorava olhando para aquilo e, enfim, me desprendia). Era tudo meio triste. Sendo assim, por mais louca que eu fosse, muita loucura ainda me distanciava de protagonizar algum episódio daquela série "Acumuladores" do Discovery Home & Health.
Pra quem não sabe, esse programa mostra pessoas excessivamente apegadas a seus bens materiais, que não jogam absolutamente nada fora, mesmo os lixos e as coisas inúteis, como uma embalagem vazia de tinta de impressora, por exemplo. Elas moram literalmente em lixões, e na maioria das vezes é complicado até caminhar entre os cômodos. Acho que toda semana, inclusive, mostram casos de ratos encontrados no meio da sala de estar, tamanha é a sujeira e a porquice dessas pessoas.
Há um tempo, lembro que vi um que me chamou bastante atenção. Deve ter sido um dos primeiros que assisti. Era uma americana, dessas bem gordas e solteironas, que guardava coisas já há uns 20 anos. Ela tinha em casa embalagens de produtos que nem eram fabricados mais. E as coisas não eram organizadas, claro. Pra se ter uma ideia, os caras do programa encontraram uma caixa de cereal vazia na gavetas de roupas dela. Nojento. Mas o que me marcou mesmo foi ela dizendo que não conseguia jogar tais coisas fora porque sentia que os objetos a viam como uma espécie de mãe. Assim como a gente, que não pede pra nascer, tais objetos também não pediram para ser comprados, e se ela o fez, ela se torna responsável por eles, não podendo abandoná-los. Não é à toa que na equipe do programa há psicólogos.
Já tem um tempo que não assisto Acumuladores - meus queridinhos no canal agora são Pequenas Misses e Não sabia que estava grávida -, mas toda essa história me veio à cabeça esse final de semana, quando comprei uns Frutillys, aquele picolé que custa R$1,00 e é feito para crianças.
Colecionar e brincar com palitos melados de sorvete. Por que será que existem acumuladores, né?
