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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Passando vergonha no campo de centeio

"O que é um personagem? O que acontece com os personagens quando fechamos o livro? Para onde vão? Existe outra dimensão, um lugar onde Holden, Ivanhoé e Patrick Bateman moram no mesmo condomínio? Um mundo em que Huck Finn e o Pequeno Príncipe jantam todos os dias, como figurantes em um filme, esperando para retomar seus papéis, perguntando por que seus criadores nunca telefonam?"

Não posso negar que rolou uma identificação ao ler o trecho, pertencente ao prefácio do livro "60 anos depois - do outro lado do campo de centeio", que destaco acima. Sempre que fecho um livro ou termino de assistir a um filme, perco pelo menos uns 5 minutos pensando pra onde vão todos aqueles personagens depois que os escritores e diretores colocam um ponto final nas histórias. Pode parecer meio babaca pensar nisso, mas sério, depois de ler sei lá quantas páginas e acompanhar toda uma trajetória, quando um livro acaba, por exemplo, chega a ser estranho pensar que daquela gente (as personagens) nunca mais saberemos. Ou que foi bom enquanto durou, mas agora acabou.

Há uns dois meses, fiquei sabendo da existência - e do lançamento - de um livro que conta a vida de Holden Caulfield, personagem do famoso livro de J.D. Salinger "O Apanhador no Campo de Centeio", 60 anos depois que a história acontece. Dessa vez Salinger não é o autor do tal livro, e sim Fredrik Colting, um escritor sueco muito corajoso (isso não é um elogio) e pretensioso - só uma pessoa assim pra continuar uma obra tão bem sucedida.

J.D. Salinger morreu no início do ano passado e eu até cheguei a fazer um post sobre ele aqui no blog. "O Apanhador no Campo de Centeio" é um dos meus livros favoritos de todos os tempos, e é claro que quando eu soube do livro do tal sueco, mesmo já imaginando que lá vinha uma bela bomba, fiquei muito curiosa pra ler. E pra tornar essa experiência muito mais interessante, resolvi reler "O Apanhador..." poucos dias antes de começar sua suposta continuação.

Antes de continuar, imagine uma pessoa X escrevendo uma continuação de Dom Casmurro. Ou, então, para Harry Potter. Faz algum sentido?


Na história de Fredrik Colting, Holden tem 76 anos, é viúvo e vive num asilo onde seu filho Daniel (sim, Holden é pai) o deixou. Holden Caulfield vivendo num asilo! Num asilo! São escolhas como essa que me deixaram completamente envergonhada enquanto lia o tal livro. E o mais ridículo é que Fredrik claramente copiou o estilo descritivo de Salinger para escrever sua história. Qualquer pessoa que ler a obra original e depois ler essa vai perceber. Ele forçou a barra legal. Não há outras palavras que definam tão bem esse livro quanto "vergonha alheia". Não sei como não fui parar embaixo da cama enquanto perdia meu tempo lendo essa baboseira.

Acho que a melhor parte do livro é o prefácio, da onde eu tirei o trecho que começa esse post. É a única coisa que parece fazer sentido.

É interessante e curioso pensar, imaginar, questionar o futuro dos personagens de livros, filmes, seriados, novelas. De qualquer forma, obrigada, Fredrik Colting, por me mostrar que o melhor é deixar essas dúvidas na imaginação mesmo. Que bom que Salinger teve tempo de processar esse escritor antes de morrer.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Salinger, a saga

Era óbvio que a procura pelos livros do Salinger seria maior depois da morte dele. E era óbvio também que eles esgotariam. Como não pensei nisso antes, né? Na verdade, isso até chegou a passar pela minha cabeça, mas logo a idéia de que relançariam todas as suas obras chegou e eu acreditei fielmente nela. E me enganei, claro.

No final do ano passado, enquanto navegava pela internet à fora, li uma resenha muito legal sobre Franny e Zooey e logo fiquei com vontade de lê-lo. Na mesma hora, o procurei nas lojas online da Saraiva, Fnac, Cultura e afins e nada do livro. A única coisa que eu via ali eram várias versões de O Apanhador no Campo de Centeio - para felicidade de quem nunca leu essa obra prima, e tristeza de quem quer ler mais do autor. Bom, desencanei naquela noite e decidi que procuraria nas lojas físicas mesmo. Acontece que logo em seguida eu fui pra Israel e deixei essa ideia um pouco de lado. Não passou nem um mês e o Salinger morreu.

Choquei. Foi aí que aquela brilhante idéia do primeiro parágrafo apareceu. "Agora sim vai ficar mais fácil de achar os outros livros dele!", pensei. Voltei a pesquisar na internet e nada de achá-lo. Agora, pior ainda, nem O Apanhador no Campo de Centeio tinha. Claro, né, Salinger é muitas vezes sinônimo de O Apanhador, e em muitos jornais, só ele foi citado nas matérias sobre a morte do escritor. Nada mais justo, então, das pessoas procurarem exatamente este.

Fui na Livraria Saraiva, fui na Livraria da Vila, e em todas ouvi um simpático "não tem" dos vendedores, quando perguntados sobre Franny e Zooey. É, aquilo já estava virando uma saga. Não podia ser tão difícil assim comprar um livro! E tudo começou a melhorar 1 mês e alguns dias depois, quando um professor da faculdade mandou a gente ler um conto do Salinger.

Um dia ideal para os peixes-banana. Esse é o primeiro conto do livro Nove Estórias. Confesso que fiquei bastante animada quando ouvi ele indicando o Salinger pra gente. Ler um texto dele pra faculdade não seria nenhum castigo. O castigo, eu imaginei, seria achar o bendito. Bom, pra sorte da galera, ele disponibilizou cópias do conto, mas eu senti que aquele não era o caminho pra mim. Veja bem, eu acredito em destino, e levando em conta toda a saga pela qual eu já estava passando, não custaria acrescentá-lo, junto a Franny e Zooey, à minha busca. E foi o que eu fiz.

Saindo da aula, fui na Livraria Cultura da Avenida Paulista disposta a levar o que tivesse lá.
- Onde estão os livros do Salinger? - perguntei à primeira vendedora que encontrei
- Em que língua?
- Hmmm...pode ser em inglês ou português.
- Acho que só vou ter em inglês mesmo. Venha comigo - ela disse.
Chegando na estante, só dois livros eram do Salinger. Um, claro, era O Apanhador. O outro, pra minha sorte, era Nove Estórias. Encontrá-lo assim, fácil? Uau, aquele parecia ser meu dia. Aproveitando a boa maré, perguntei sobre Franny e Zooey.
- Hmm, se não tem aqui na estante dos livros em inglês, não tem. Agora que o Salinger morreu, eu recebo 200 livros dele e em dois dias todos já foram vendidos. Antes eles ficavam um tempo nas estantes, mas agora, nada. - me falou a vendedora.

Sim, era óbvio. Quem não lucra quando morre, né? Dãã! Bom, eu não podia reclamar. Já tinha achado um livro, mesmo que em inglês. Me dirigindo ao caixa, resolvi dar uma olhada geral na livraria. Pra quem não a conhece, a Cultura da Avenida Paulista é simplesmente o paraíso dos livros. É enorme, cheia de pufes coloridos e muitas pessoas lendo ou dando voltas pelo local. Já era tarde e eu não podia ficar muito tempo por lá, mas resolvi dar uma passeadinha. Foi quando encontrei um vendedor disponível e, como quem não quer nada, perguntei se ele não tinha mesmo o maldito livro que eu estava procurando tanto.

- Franny e Zooey? Hmm, quase certeza que tenho sim.
- AHN? Tem mesmo?? Sério? Eu perguntei pra outra vendedora e ela disse que não tinha!
- É, pois é...Os livros do Salinger têm saído muito rápido! E faz um tempinho que não recebemos reposição. Mas se eu não me engano, vi ele hoje na estante. Vamos lá.
Eu só faltei cruzar os dedos enquanto me dirigia com o vendedor à estante. Pra minha aflição, quando chegamos lá, ele não achou o livro. Olhou umas três vezes e nada. "É...acho que já levaram", ele me disse. Bom, tudo bem né...fazer o quê. Eu já estava agradecendo-o e indo pagar o Nove Estórias, quando escapou da boca dele um "Ôpa! Olha quem tá aqui!". Sério, ele falou desse jeito.

E eu sai feliz da vida da Livraria Cultura.
p.s. Hoje ele já está disponível pelo site e toda a saga poderia ter sido um tanto mais curta. Mas faz parte.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

E para você, J.D. Salinger, o meu obrigado

Talvez seja um pouco tarde pra escrever sobre isso, mas dane-se. O fato é que J.D. Salinger morreu semana passada e eu venho pensando tanto nisso que precisava postar sobre. Ele, pra quem não sabe, é autor de O Apanhador no Campo de Centeio. Sim, o livro que o assassino de John Lennon carregava consigo no dia em que cometeu o assassinato. Mas, além disso, ele também foi, se não o primeiro, um dos primeiros grandes livros da minha vida. E não digo grande de tamanho, mas sim de história, de importância, enfim.

Foi o Jorge, meu professor de português da 8a série, que mandou a gente ler a obra. Isso foi em 2004, e pode parecer clichê o que vou falar, mas acredite: eu ainda tenho na minha mente imagens minhas sentada no sofá, na cama ou até mesmo na escola lendo o livro e pensando quão bom aquele enredo era. Lembro também do dia em que eu terminei a leitura e fiquei parada, pensando. Lembro de eu indicá-lo pra todo mundo que me pedia uma dica de livro. Lembro de discutir com uma menina sobre o final da história. Lembro de praticamente tudo. E isso foi em 2004, há quase 6 anos.

E mesmo hoje, aos 20 anos de idade e com vários outros livros sensacionais na bagagem, não me atrevo a esquecer de mencioná-lo quando o assunto é meus livros favoritos. Ele, aliás, é sempre o primeiro a vir na minha cabeça. Sabe quando era legal responder a todos aqueles tópicos do perfil do Orkut como "cozinha predileta", "música", "filmes" e etc? Então, na parte de livros, O Apanhador no Campo de Centeio sempre foi o primeiro a ser escrito. Me arrisco a dizer, inclusive, que esse foi o livro que mudou a minha vida literariamente falando. Acho que foi ele que me fez gostar mais de ler, de me envolver com a história. E olha que desde bem pequena a leitura está presente na minha vida.

Por essas e outras, deixo aqui o meu profundo agradecimento à esse cara que escreveu um livro foda pra caralho. E desculpe o palavrão, foi a maneira mais sincera que eu encontrei para demonstrar o meu amor por ele.

RIP J.D. SALINGER

* na imagem acima, um pequeno texto que escrevi sobre O Apanhador no Campo de Centeio para a revista Capricho, em 2006.